Quando os Portões Caírem

Capítulo 1 · O único não da sala

DANTE

Eu tinha pago por aquela festa. Pela comida, pela orquestra, pelas flores e até pela ambulância parada na rua. A única coisa que não estava no contrato era Lívia Tavares dizer não.

Na hora, eu ainda não sabia o nome dela.

Eu tinha quarenta e um anos e pouca prática com recusa. Quase todo não que chegava até mim vinha acompanhado de um preço, um prazo ou uma pessoa pronta para mudar de ideia. O dela veio sem espaço para negociação.

Sabia que tinha trinta e poucos anos, cabelo escuro preso de qualquer jeito e um ponto preto no ouvido. Sabia que ela trabalhava no evento porque, enquanto os outros bebiam, ela atravessava o salão com uma prancheta apertada contra o corpo e resolvia problemas sem pedir licença. Também sabia que já tinha olhado para mim duas vezes.

Na primeira, conferiu se eu estava onde deveria estar. Na segunda, concluiu que eu era o problema.

O jantar anual da Fundação Ferraz reunia trezentas pessoas num hotel cercado por jardins que ninguém usava. Empresários, artistas, dois ministros, meia dúzia de gente que fingia não se importar com a presença dos ministros. No palco, uma tela de quinze metros repetia fotos de crianças uniformizadas ao lado do nome da minha família. A fundação financiava escolas técnicas. O grupo financiava quase todo o resto.

Eu estava perto da entrada principal quando Samuel encostou dois dedos no próprio fone.

— A viúva do acidente chegou.

— Qual delas?

— A do galpão de Vale Seco.

Olhei para a porta. Uma mulher pequena, de vestido azul-marinho, discutia com dois seguranças. Trazia uma pasta transparente contra o peito. Dentro, dava para ver uma fotografia de um homem usando capacete amarelo.

O acidente tinha acontecido quarenta e três dias antes. Uma estrutura metálica caiu durante a madrugada e matou dois terceirizados. O Grupo Ferraz não operava o galpão. Era dono do terreno e tinha participação na empresa responsável pela obra, o que, para a imprensa, dava no mesmo.

— Tira ela daqui antes do discurso.

Samuel fez um sinal discreto. Um dos seguranças tocou o braço da mulher.

— Não.

A voz veio do meu lado.

A mulher da prancheta já estava ali. De perto, os olhos eram castanhos, quase pretos, e o crachá virado escondia o nome.

— Você falou comigo? — perguntei.

— Falei com eles.

Ela apontou para os seguranças sem tirar os olhos de mim.

— E mandou fazer o contrário do que eu mandei.

— Mandei evitar uma cena.

— É justamente o que eles estão fazendo.

— Não. Eles estão começando uma.

A viúva puxou o braço. Um celular já tinha se erguido perto da porta.

Depois outro.

— Ela não está na lista — eu disse.

— Também não estava no plano ficar viúva aos vinte e nove.

Samuel baixou o queixo. Era o jeito dele de esconder que tinha ouvido uma frase que daria demissão em qualquer outro funcionário.

— Quem contratou você?

— Hoje? Sua diretora jurídica. E ela me contratou para impedir que o senhor transforme um problema ruim num desastre filmado na vertical.

Ela passou por mim antes que eu respondesse.

Foi até a entrada, pediu para os seguranças soltarem a mulher e falou alguma coisa no ouvido dela. A viúva olhou na minha direção. Não chorava. Isso deixava a fotografia do marido pior.

— O que ela está fazendo? — perguntei.

Samuel ouviu pelo ponto.

— Ofereceu cinco minutos com a imprensa depois do seu discurso e uma reunião com a doutora Helena na segunda-feira.

— Ela pode oferecer isso?

— Acabou de oferecer.

A mulher da prancheta voltou.

— Resolvido.

— Você acabou de usar o meu jurídico sem autorização.

— Usei o nome da pessoa que vai precisar resolver isso quando a festa acabar. Quer que eu chame a segurança de novo e devolva os celulares para o lugar?

Ela não levantou a voz. Não tentou parecer corajosa. Só estava com pressa.

— Vira o crachá.

— Pra quê?

— Quero saber quem acabou de me dar uma ordem no meu evento.

— Não dei uma ordem. Dei uma saída.

Mesmo assim, virou o crachá.

LÍVIA TAVARES. ARCO GESTÃO DE CRISE.

Guardei o nome.

— Cinco minutos — falei. — Depois disso, quero essa mulher fora do salão.

— Ela vai embora quando terminar de falar com a doutora Helena.

— Você tem algum prazer especial em me contrariar?

Lívia conferiu o relógio.

— Ainda não deu tempo de descobrir.

O ponto no ouvido dela chamou. Ela levou a mão à haste, respondeu que já estava indo e se afastou sem esperar minha reação.

Fiquei olhando.

Samuel me chamou duas vezes antes que eu deixasse de olhar para a porta lateral. Faltavam quatro minutos para o discurso. No palco, o teleprompter já esperava com um texto que continuava tratando a noite como celebração.

— Manda cortar o trecho sobre segurança operacional.

Samuel levou a mão ao ponto. A comunicação queria manter. Olhei outra vez para a porta por onde Lívia desaparecera.

— Então troca a equipe.

Ele não se mexeu. Tive de dizer que era uma piada. Samuel me conhecia havia tempo demais para acreditar depressa; ficou esperando até que eu me afastasse em direção ao palco.

Subi ao palco no horário. O teleprompter trouxe números de bolsas, cursos inaugurados, empregos gerados e uma frase sobre responsabilidade que alguém tinha escrito para caber num recorte de jornal. Pulei a frase. No fim, saí por uma lateral e encontrei Helena Prado me esperando atrás da cortina.

Antes que ela falasse, ouvi Patrícia Nunes chamar meu nome no salão. Não gritou. Só ficou de pé perto da última mesa, segurando a fotografia do marido acima da cabeça. A orquestra ainda tocava, mas o maestro perdeu o ritmo quando os primeiros celulares viraram para ela.

Esta é uma amostra do primeiro capítulo.

Conheça a história completa quando o e-book estiver disponível.

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